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10. fazer amigos, sair de casa, viver sua vida.‛ Eu: ‚Se você quer que eu aja como adolescente, não me mande para oGrupo de Apoio. Compre uma carteira de identidade falsa para mim e aíeu vou sair à noite, beber vodca e tomar baseado.‛ Mamãe: ‚Para início de conversa, não se toma baseado.‛ Eu: ‚Viu? Esse é o tipo de coisa que eu saberia se você comprasseuma carteira de identidade falsa para mim.‛ Mamãe: ‚Você vai para o Grupo de Apoio.‛ Eu: ‚SAAAAAAACO.‛ Mamãe: ‚Hazel, você merece uma vida.‛ Aquilo me fez calar a boca, mesmo não tendo conseguido entender oque a ida ao Grupo de Apoio tinha a ver com a definição de vida. Dequalquer jeito, concordei em ir — depois de negociar o direito de gravar oepisódio e meio do ANTM que eu ia perder. Ia ao Grupo de Apoio pelomesmo motivo que uma vez deixei enfermeiras com um ano e meio defaculdade me envenenarem com substâncias químicas de nomes exóticos:queria fazer meus pais felizes. Só tem uma coisa pior nesse mundo quebater as botas aos dezesseis anos por causa de um câncer: ter um filho quebate as botas por causa de um câncer. ***Mamãe parou na entrada de carros circular atrás da igreja às 4h56. Fingique estava ajeitando o cilindro de oxigênio por um segundo só para ganhartempo. — Quer que eu o carregue até lá dentro? — Não, está tudo bem — respondi. O cilindro verde só pesava uns poucos quilos e eu tinha um carrinhode aço para transportá-lo. Aquilo me fornecia dois litros de oxigênio porminuto através de uma cânula, um tubo transparente que se dividia bemembaixo do meu pescoço, passava por trás das orelhas e se juntava de novonas narinas. A geringonça era necessária porque meus pulmões faziam umpéssimo trabalho como pulmões.
11. — Eu te amo — ela disse, enquanto eu saltava do carro. — Eu também, mãe. Vejo você às seis. — Faça amigos! — ela gritou pela janela abaixada enquanto eu medistanciava. Não quis usar o elevador porque isso é o tipo de coisa quevocê faz nos seus ‚Últimos dias no Grupo de Apoio‛, então fui de escada.Peguei um biscoito, coloquei um pouco de limonada num copo descartávele me virei. Um garoto olhava fixamente para mim. Eu tinha quase certeza de nunca ter visto aquele cara na vida. Alto emagro, mas musculoso, ele fazia a cadeira de plástico, daquelas usadas emsala de aula, parecer minúscula. Cabelo acaju, liso e curto. Parecia ter aminha idade, talvez um ano mais velho, e estava sentado com o cóccix nabeirada da cadeira, uma postura péssima, com uma das mãos enfiada até ametade no bolso da calça jeans escura. Desviei o olhar, repentinamente consciente da quantidade infinita decoisas erradas em mim. Eu estava com uma calça jeans velha, que algumdia foi justa mas que agora ficava folgada nos lugares mais estranhos, euma camiseta de malha amarela com o nome de uma banda da qual eunem gostava mais. Tinha também meu cabelo: cortado tipo PríncipeValente, e eu nem tive a preocupação de, puxa, dar uma escovada nele.Além disso, minhas bochechas estavam ridiculamente redondas, como asde um esquilo, efeito colateral do tratamento. Eu era uma pessoa deproporções normais com um balão no lugar da cabeça. Isso sem falar doinchaço nos tornozelos. Mesmo assim, dei uma espiada rápida e os olhosdele ainda estavam grudados em mim. Foi então que entendi o verdadeiro sentido de aquilo ser chamado decontato visual. Andei até a roda e me sentei ao lado do Isaac, a duas cadeiras dogaroto. Olhei de novo, rapidamente. Ele ainda me observava. Na boa, vou logo dizendo: ele era um gato. Se um cara que não é gatoencara você sem parar, isso é, na melhor das hipóteses, esquisito, e napior, algum tipo de assédio. Mas se é um cara gato… na boa… Peguei meu celular e apertei uma tecla para ver as horas. Os lugares
12. na roda foram ocupados por azarados de doze a dezoito anos e, então, oPatrick deu início aos trabalhos com a prece da serenidade: Senhor, dê-meserenidade para aceitar as coisas que não posso modificar, coragem paramodificar as que posso, e sabedoria para reconhecer a diferença entre elas.O garoto ainda estava me encarando. Senti meu rosto ficar vermelho. Por fim, resolvi que a melhor estratégia seria também olhar fixamentepara ele. Afinal de contas, os garotos não detêm o monopólio da AtividadeEncaradora. Foquei nele enquanto o Patrick explicava pela milésima vezsua ausência debolas etc., e aquilo logo virou um Jogo do Sério. Depois deum tempo o garoto sorriu e, até que enfim, desviou os olhos azuis. Quandome olhou de novo, arqueei as sobrancelhas como que dizendo: ganhei. Ele deu de ombros. O Patrick prosseguiu e, enfim, a hora dasapresentações chegou. — Isaac, talvez você queira ser o primeiro hoje. Sei que estáenfrentando um grande desafio no momento. — É — o Isaac disse. — Meu nome é Isaac. Tenho dezessete anos.Parece que vou precisar ser operado em duas semanas, depois vou ficarcego. Não estou reclamando nem nada porque sei que poderia ser pior,como no caso de alguns aqui, mas, quer dizer, ficar cego é, tipo, umadroga. Ter uma namorada me ajuda. Além de amigos como o Augustus. —Ele balançou a cabeça na direção do garoto, que agora tinha nome. — Poisé… — continuou. Ele estava olhando para as mãos, os dedos cruzadosparecendo o topo de uma tenda indígena. — Não há nada que se possafazer para mudar isso. — Estamos do seu lado, Isaac — o Patrick falou. — Vamos lá,pessoal, digam para o Isaac ouvir. E então todos nós, em uníssono, dissemos: — Estamos do seu lado, Isaac. O Michael foi o próximo. Ele tinha doze anos. Sofria de leucemia.Desde que se entendia por gente. E estava bem. (Pelo menos foi o quedisse. Ele desceu de elevador.) A Lida tinha dezesseis anos e era bonita o suficiente para ser alvo doolhar do cara gato. Era frequentadora assídua das reuniões — estava em
13. um longo período de remissão de um câncer de apêndice, que eu nemsabia que existia. Ela disse — como em todas as outras vezes que eu fui àssessões do grupo — que se sentia forte, o que para mim, com aquelachuvinha de oxigênio fazendo cosquinhas no nariz, era o mesmo que tiraronda. Outros cinco falaram antes do cara gato. Ele deu um sorrisinhoquando chegou sua vez. A voz era baixa, aveludada e supersensual. — Meu nome é Augustus Waters — disse. — Tenho dezessete anos.Tive uma pitada de osteossarcoma um ano e meio atrás, mas só estou aquihoje porque o Isaac pediu. — E como está se sentindo? — o Patrick perguntou. — Ah, maravilha. — Augustus Waters deu um sorrisinho. — Estounuma montanha-russa que só vai para cima, amigão. Quando chegou minha vez, eu disse: — Meu nome é Hazel. Tenho dezesseis anos. Tireoide com metástasenos pulmões. Estou bem. A hora passou rápido. Lutas foram recontadas,batalhas ganhas em guerras que com certeza seriam perdidas; a esperançavirou tábua de salvação; famílias foram celebradas e recriminadas; foiconsenso que os amigos não entendiam nada; lágrimas foramcompartilhadas, e consolo, oferecido. Nem eu nem o Augustus Waters tínhamos soltado uma palavra, atéque o Patrick disse: — Augustus, talvez você queira falar de seus medos para o grupo. — Meus medos? — É. — Eu tenho medo de ser esquecido — disse ele de bate-pronto. —Tenho medo disso como um cego tem medo de escuro. — Calma aí… — disse Isaac, abrindo um sorriso. — Estou sendo insensível? — perguntou o Augustus. — Eu posso serbem cego quando o assunto são os sentimentos das outras pessoas. O Isaac estava rindo, mas o Patrick levantou um dedo, repreendendo-o. — Por favor, Augustus. Voltemos a você e às suas questões. Disse quetem medo de ser esquecido?
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